Tradição

Resistentes ao tempo e aos hábitos

Profissões antes comuns perdem espaço com avanços tecnológicos, mas resistem na experiência de quem ainda as exerce

Carlos Queiroz -

Com o passar dos anos está se tornando nítido que ofícios que eram bastante comuns e usados por muitas pessoas, aos poucos, estão sendo extintos, restando raros profissionais em atividade. Especialidades que faziam parte do dia a dia de gerações mais antigas, como relojoeiros e sapateiros, estão entre eles. Mas o fenômeno também se dá com serviços e comércios que fizeram parte também da vida de pessoas mais jovens. Revistarias e videolocadoras estão entre as que enfrentam desafios diante de novos hábitos de consumo.

Aos 81 anos, José Maria Aguiar se dedica à atividade de sapateiro desde os 17. O que faz dele um dos que tem mais tempo de profissão em Pelotas. Apesar da busca por consertos em calçados não ser mais tão usual, o sapateiro diz não pensar em deixar o ofício pelo qual não só tem amor como, também, ensinou e tornou o sustento dos filhos. Ele brinca que tem administrado o ramo na cidade, já que os quatro herdeiros dedicam-se aos reparos, todos com sapatarias próprias. “Ficamos tristes quando vemos sapatarias fechando, somos poucos já. Em comparação com uns 30 anos atrás diminuiu e com a pandemia a procura por conserto diminuiu mais ainda”, conta.

Além da sapataria, Aguiar passou a expandir o leque da atividade, fazendo também a manutenção de outros utensílios que vão do conserto de chapéus, bolsas e até barracas. No entanto, diz que mantém guardados cerca de cem formas e moldes de madeira dos “tempos de ouro” em que dedicou-se também à confecção de calçados. Materiais que considera que em pouco tempo podem virar apenas história de uma atividade. “Cheguei a fazer 15 pares de sapatos por dia, dependendo do tipo. Houve uma época que a tamanca era moda, uma sensação, chegava a fazer 300 pares por semana, enchia o DKW Vemaguet e entregava até em Jaguarão”, recorda. Além dos moldes, guarda com carinho uma máquina de costura de ferro que o acompanha há 63 anos.

Embate com o digital

Lidando com a revolução da internet e os impactos no consumo de conteúdo, Edmilson Rodrigues tem, nos últimos 20 anos, sido obrigado a adaptar seus serviços à demanda. Ex-proprietário de uma videolocadora, o empresário relembra que este tipo de empreendimento viu de perto a evolução dos meios, passando do videocassete para mídias digitais e destas para o atual serviço de streaming. “Houve o ‘boom’ das fitas VHS, depois o CD e DVD, mas com o fácil acesso aos computadores dá para se dizer que o nosso maior concorrente foi a pirataria”, relata.

Com o fechamento da videolocadora, Rodrigues passou a apostar em outro negócio: a lan house, que também perdeu espaço. O serviço ainda é disponibilizado, entretanto com a popularização dos eletrônicos, as pesquisas, trabalhos de escola, busca por boletos e confecção de currículos, pontuados por ele como os motivos de maior procura, passaram a ser realizados na palma da mão, em qualquer aparelho de celular. Para driblar a crise e evitar o fechamento de mais um negócio, voltou-se ao xerox, que mesmo com um público bastante reduzido, consegue manter a renda.

Procura reduzida

Mais um a bater de frente com plataformas digitais, o setor dedicado à venda de revistas, jornais e quadrinhos também tem perdido força. As bancas, que há 20 anos se dedicavam à venda de cartões para ligações em orelhões, recargas para celular, jornais impressos e revistas, atualmente têm se voltado a um público bem específico. Ou, na pior das hipóteses, fechado suas portas, uma vez que o papel está sendo trocado pelos links.

Proprietário de uma loja voltada a revistas colecionáveis, como histórias em quadrinhos, Junior do Vale dedica-se ao setor há 23 anos. Quando embarcou na profissão, tinha as vendas restritas a revistas convencionais e jornais, entretanto com o passar dos anos a procura caiu e o nicho precisou ser ajustado. Há cerca de dez anos, a Distribuidora Nacional de Publicações realizou levantamento e estimou que o mercado de vendas duraria de 20 a 30 anos, já prevendo queda de procura devido aos avanços da era digital. Mas foi mais rápido. “A quantidade de publicações que as bancas recebem nem se compara aos anos 90, por exemplo, pois já é reconhecida a baixa procura”, diz o empresário.

Em Pelotas, as bancas tradicionais foram desaparecendo. Primeiro as localizadas em bairros, depois as de farmácias, supermercados e, por fim, postos de combustíveis. Atualmente apenas quatro estão em atividade, além da loja de revistas de Junior. “As revistas estão desaparecendo. Por exemplo, quem quiser fazer palavra cruzada não vai passar isso para a geração futura, essa vai direto no celular. As próprias editoras estão voltando seu público ao livro digital, porque o custo é menor”, conta.

Vale resume o que houve com sua atividade e que, de certa forma, parece valer a outras. Segundo ele, os antigos trabalhadores destas áreas estão deixando de lado seus negócios e, em um futuro próximo, as profissões estarão extintas. Até lá, ainda é possível encontrar estes estabelecimentos como referências em serviços e resistência ao tempo.

O tempo que passa

Localizada no Centro, a mais antiga relojoaria de Pelotas ocupa o mesmo prédio desde 1979, mas a história é mais longeva. Filho do primeiro proprietário, Ednelson Quadros conta que o amor pela profissão é um legado do pai. Entretanto, se na década de 80 era comum a utilização de relógios, muitas vezes com valor emocional e financeiro, o passar do tempo transformou o hábito de conferir as horas e obrigou o ramo a se reinventar. “Hoje o pessoal mais jovem não usa relógio convencional. É o digital ou opta por olhar as horas no celular mesmo. Já aqueles relógios de casa, se tornaram tão baratos que são descartáveis”, relata.

Apesar disso, Quadros se diz otimista quanto ao futuro, ressaltando que para continuarem existindo as relojoarias precisam se adaptar à manutenção de novos equipamentos e acompanhar as evoluções tecnológicas.

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